Leia o testemunho da Virginie Cantat

“Sempre fui gordinha, desde pequenina.

Fiz a minha primeira dieta com 8 anos e 57kg, daí em diante fiz dietas atrás de dietas. Dietas com plano alimentar, dietas com comprimidos, dietas com e sem desporto…

Algumas com resultados positivos, outras nem por isso. Fazendo as contas a todo o dinheiro que gastei para emagrecer poderia ter pago a minha cirurgia num estabelecimento privado.

Tenho o dia em que foi assinada a minha proposta de cirurgia como um dos dias mais felizes da minha, era um sonho prestes a tornar-se realidade. Era uma gorda, super bem-disposta, mas com tendências depressivas.

Tinha nos últimos 4 anos antes da cirurgia muito cuidado com a alimentação, privava-me de tudo!

Não perdia uma grama! Mas tinha analises de sangue exemplares!

Criei um complexo tal que tinha a mania da perseguição, se fosse a um restaurante e pedisse um bife grelhado com vegetais imaginava o empregado a entregar o pedido na cozinha dizendo – “Está la fora uma gorda que em casa deve enfardar este mundo e o outro e aqui pediu um bife grelhado com vegetais”

Deixei de comer gelados em público porque imaginava que as pessoas que passavam por mim diziam – “Aquela gorda em vez de ir a comer uma maçã vai ali a lamber um gelado”

Cheguei aos 35 anos com 108kg e a 21 de novembro de 2016 fui submetida a um sleeve gástrico!

Era o sonho tornado realidade, mas acabou por ser um pesadelo, ainda é, mas tenho esperança de um dia olhar para trás e pensar de outra forma! 2 meses após a cirurgia comecei a introdução de sólidos e nunca mais tive descanso. Vomitava todos os dias, comecei a ter refluxo gastro esofágico que foi piorando até ser insustentável. Cheguei a abril 2018 com 65 kg desnutrida (apesar de não estar magra) e desidratada.

Fui operada a 23 de abril, fizeram conversão do sleeve para bypass com colicestomia e hiatoplastia.

O pós-operatório correu muito mal, durante 5 dias sem comer e apenas alimentada por soro vomitava constantemente. Fui submetida a uma nova laparoscopia exploradora para verificar o que estava a acontecer. Descobriram que tive um colapso de uma bolsa digestiva por insuficiência do intestino em realizar os movimentos peristálticos e que aquilo que eu vomitava era o conteúdo intestinal…a costura criou seroma e durante 2 meses tive que fazer curativo! Desde da alta em maio emagreci mais 10kg.

Vomito quase diariamente e só consigo comer líquidos ou pastosos, mas graças a Deus nunca mais tive refluxo. Os médicos não sabem mais o que fazer.

Fiz endoscopia e confirmaram que continuo com uma hérnia com cerca de 3cm segundo a medica esta hérnia deveria ser monstruosa para ainda ter ficado com 3cm.

O estômago esse tem 2cm…da í a minha intolerância aos sólidos. Como é que um estômago deste tamanho consegue produzir suco para digerir o que quer que seja…

As quantidades que consigo tolerar são tão poucas que está difícil de conseguir travar a descida do peso.

Vou fazer um trânsito gastro esofágico e consulta com o cirurgião para que me sejam dadas opções de tratamento sendo uma delas a possibilidade de voltar ao bloco para dilatar as anastomoses.

Hoje peso 55kg, tenho luz verde de todas as especialidades para comer o que me apetece, o importante é não emagrecer mais! Mas ironia do destino, não consigo.

Obrigo-me a tomar as vitaminas todas, os batidos proteicos, mas ainda assim o peso vai baixando!!

Acreditava que ser magra era tudo aquilo que eu precisava para ser feliz. Afinal descobri que nem sempre aquilo que mais queremos é de facto aquilo que mais precisamos.

O sofrimento a que eu e as pessoas que me amam foram sujeitos foi um preço demasiado alto.

Apesar de tudo consigo finalmente ver o copo meio cheio.

Alimento-me sozinha sem necessidade de sondas e estou viva!

O que hoje é uma realidade dolorosa amanhã não será mais do que uma penosa recordação!

Acredito que o nosso testemunho é muito importante para ajudar a desmistificar a obesidade. É urgente esclarecer a população que ostraciza os obesos.

Bem-haja à equipa Apobari por tudo aquilo que representa.

Virginie”